Dezembro, 2025
Aliança da Soja Sustentável • 4 min de leitura
A adoção de práticas sustentáveis no campo não acontece por moda ou discurso. Nas fazendas, ela costuma começar quando a conta precisa fechar, o clima se torna mais imprevisível e o solo passa a mostrar seus limites. As experiências compartilhadas por três fazendas membros da Aliança da Soja Sustentável mostram como a sustentabilidade vem sendo construída como estratégia produtiva, econômica e de resiliência.
Mais do que listar técnicas, os relatos revelam uma mudança de lógica: decisões cada vez mais orientadas pelo solo como ativo produtivo, pela gestão do risco climático e pela busca de maior estabilidade produtiva e econômica ao longo do tempo.
Solo como ativo estratégico e estabilidade produtiva
Na Fazenda Estância, cuidar do solo passou a ser o principal critério de decisão produtiva. O uso de plantio direto, rotação de culturas, plantas de cobertura e tecnologia aplicada ao manejo tem como objetivo fortalecer a biologia do solo e garantir sua funcionalidade ao longo do tempo.

“Hoje, muitas decisões na fazenda são baseadas no que é melhor para o solo. Se não cuidarmos dele, a produtividade tende a diminuir ao longo do tempo.”
Aline Vick, Fazenda Estância
Uma das estratégias adotadas foi destinar cerca de 20% da área a culturas de serviço em determinados períodos do ano, escolhidas de acordo com a necessidade do solo. O resultado aparece de forma clara na estabilidade da produção ao longo dos últimos cinco anos, mesmo diante de grandes variações no regime de chuvas.
“Nos últimos cinco anos, nosso gráfico de produção se manteve relativamente estável, mesmo com grande variação do volume de chuvas.”


Em períodos de seca, a presença de raízes profundas das culturas anteriores permitiu que a soja buscasse água em profundidade. Já em episódios de chuvas intensas concentradas em poucas horas, a palhada formada pelas culturas de cobertura evitou perdas severas, chegando, em alguns casos, a salvar áreas que teriam sido perdidas sem essa proteção.
“Em momentos de chuva excessiva, a palhada chegou a salvar um plantio que teria sido perdido sem a proteção do solo.”
Na prática, o ganho não aparece como pico produtivo, mas como perda evitada, redução de risco e maior previsibilidade econômica.
Integração produtiva que paga a conta
Na Fazenda Barbosa, a adoção da Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) surgiu como resposta a uma limitação regional e à busca por novas fontes de renda. A integração trouxe a pecuária e a madeira como atividades complementares e aumentou a matéria orgânica do solo com o uso de braquiária.
Os resultados são objetivos. As áreas com ILP apresentam, em média, 12,3 sacas de soja a mais por hectare em comparação às áreas convencionais, além da expansão expressiva da atividade pecuária.

“Temos custos um pouco maiores em alguns pontos, mas o que ganhamos em produtividade é muito superior.”
Fernando Devicari, Fazenda Barbosa
O foco atual está no ajuste fino do sistema, com maior uso de biológicos e fortalecimento da biologia do solo.
“Quanto mais sustentáveis estamos nos tornando, mais estamos produzindo.”


Conservação como condição de viabilidade
Na Fazenda Caiuá, o manejo conservacionista é resultado de mais de 25 anos de experiência em solos arenosos e clima desafiador. O plantio direto na palha, com zero revolvimento do solo, aliado ao uso intensivo de plantas de cobertura e à rotação diversificada de culturas, permitiu o aumento contínuo da matéria orgânica ao longo dos anos.

“A gente mede a matéria orgânica ao longo do tempo e vê que ela está aumentando.”
Gabriel Rickli, Fazenda Caiuá
Os impactos produtivos dessas práticas são claros. O uso de palhada e plantas de cobertura resulta em ganhos médios de até 10 sacas de soja por hectare. Por outro lado, a perda da palhada, especialmente associada a queimadas, pode representar redução semelhante de cerca de 10 sacas por hectare, além da perda de matéria orgânica.
O controle rigoroso de erosões também é tratado como prioridade produtiva.
“Onde tem erosão, a média chega a 20 sacas. Em uma área equivalente, sem erosão, a gente colhe em torno de 60 sacas.”
Para a Caiuá, seguir esse caminho é condição de viabilidade.
“Na nossa realidade de solo e clima, não fazer essas práticas torna a produção inviável.”


O que essas experiências mostram, na prática
A partir dos relatos das três fazendas, alguns pontos convergem de forma clara:
- 🌱 O solo é tratado como ativo produtivo, orientando decisões técnicas e econômicas
- 📉 Ganhos aparecem principalmente como perdas evitadas, estabilidade e previsibilidade
- 📊 Produtividade e rentabilidade caminham juntas, mesmo com custos adicionais pontuais
- 🔄 Integração, rotação e cobertura fortalecem a resiliência
- 🌾 A conservação do solo pode representar dezenas de sacas por hectare em diferença produtiva
- ⏳ Sustentabilidade é processo, com aprendizado e ajuste contínuo
Conclusão: estabilidade também é lucro
As experiências dessas fazendas mostram que a agricultura sustentável não se resume a aumentar médias em anos favoráveis, mas a reduzir perdas, estabilizar resultados e garantir viabilidade econômica no longo prazo.
Em um contexto de maior risco climático e pressão por eficiência, decisões orientadas pelo solo, pela conservação e pela integração produtiva têm se mostrado fundamentais para produzir mais quando é possível, e perder menos quando o clima impõe limites.
O que se observa no campo é um caminho em construção, feito de decisões pragmáticas, números concretos e aprendizado contínuo, que aponta para um futuro em que essas práticas deixem de ser chamadas de “sustentáveis” e passem a ser simplesmente a base da agricultura.
👉 Saiba mais sobre a Aliança da Soja Sustentável:
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